Mariana Braz

Artigo publicado no Gerador

A violência doméstica já não é uma novidade em Portugal e, infelizmente para o quarto país mais seguro do mundo, é um crime tão comum e normalizado socialmente a ponto de a própria justiça considerar, em diversos casos, que não é crime agredir fisicamente a parceira, citando até a bíblia para defender os agressores. Recentemente, a procura por abrigos para vítimas de violência doméstica aumentou em 73%, e mais uma mulher foi assassinada por seu parceiro, deixando dois filhos pequenos, mas o assassinato de uma mulher em contexto de violência doméstica não acontece subitamente. Os agressores vão nos matando aos pouquinhos, e não é com violência que essa história começa. Não é com um soco na cara que esses homens vão fazer com que nos apaixonemos por eles. É preciso paciência. É preciso arquitetar uma teia atrativa o suficiente para prender nossos pés e cegar nossos olhos, enquanto vão arrancando nossas asas até não sermos mais capazes de voar. É preciso criar e alimentar nossos sonhos, desejos e ilusões. É preciso nos fazer acreditar que encontramos “o homem da nossa vida”, a quem podemos nos entregar de corpo, alma, coração, e carreira, conta bancária, senha do telemóvel, chaves de casa, todo o nosso tempo livre, o que vestimos e o que comemos. 

No início só há carinho, cuidado, risadas, comprometimento, presentes, jantares, afinal, é preciso construir uma falsa imagem atrativa e que nos prenda primeiro. Depois, gradativamente, vão aparecendo “sugestões” sobre nossas roupas, nossos amigos e familiares, nosso trabalho, sobre como gastamos nosso dinheiro, onde vivemos, aonde vamos, tudo isto porque ele quer o “nosso bem”, e quem melhor do que ele para decidir o que é melhor para nós? Ele que é a personificação de um “homem de bem”, um “homem que todas as mulheres gostariam de ter”, um “príncipe”, que vai minando nossa autoestima, arquitetando intrigas para nos afastar das pessoas que nos querem bem, e criando uma dependência financeira e/ou emocional para nos prender a ele, porque, obviamente, ele é tudo o que precisamos na vida e, se não fosse ele, ninguém mais iria nos querer. Quando já estamos fragilizadas e isoladas, o “homem de bem” começa a gritar conosco, a controlar aonde vamos e com quem falamos, a mostrar seus delírios de ciúme, a nos chamar de put*s, a quebrar coisas dentro de casa, e a nos agredir fisicamente e sexualmente. A medida que a imagem construída do “homem de bem” começa a rachar, nosso “príncipe” vai tentando colar as falhas com pedidos de desculpas, flores, o “foi o álcool que me deixou agressivo”, o “foi você que me fez perder a cabeça”, e o “eu te amo e isso nunca mais irá se repetir”. Nós, já apaixonadas por alguém que não existe e pela ideia de estarmos vivendo um amor que não existe, continuamos com ele, e ele continua assassinando a humanidade que ainda nos resta a cada novo dia, a ponto de nos reduzir a uma espécie de objeto, um objeto que pertence a ele e que, portanto, ele pode (e vai) continuar destruindo. Um objeto petrificado que não terá mais asas para levantar voo e ir embora por conta própria. Que não terá mais espaço mental para conseguir racionalizar o que está vivendo (ou morrendo). Ele vai sugando nossa vida e crescendo, à medida que vamos encolhendo e morrendo. 

Continue lendo no site do Gerador