Mariana Braz

Artigo publicado no Público

Recentemente, a Associação de Apoio à Vítima (APAV) publicou o relatório anual, onde foram registados 1580 crimes contra pessoas de nacionalidade estrangeira. Na semana passada, a Universidade do Porto decidiu demitir um professor que chamou as mulheres brasileiras de “mercadoria”. Já as estatísticas mais recentes da Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR) mostram que as denúncias de discriminação contra brasileiros em Portugal aumentaram 433%. Para alguns dos leitores, talvez esses números pareçam pequenos, afinal, no Brasil é sempre pior, não é mesmo? Entretanto, não estamos no Brasil, estamos em Portugal. Sem falar que a maioria dos imigrantes ainda não denuncia tais crimes.

Enquanto mulher brasileira imigrante e profissional que trabalha com esse público, para mim, crimes contra imigrantes são uma realidade bem visível. Escuto, diariamente, mulheres que enfrentaram os mais diversos tipos de violência, e arrisco-me a dizer que não conheço nenhuma mulher brasileira imigrante que não tenha enfrentado violência em Portugal. Aqui também me refiro as “piadas” e “comentários”, que dão aos agressores a vantagem de, quando confrontados, dizer que somos loucas ou que não nos adaptamos ao país. Mas, então, ser louca é exigir respeito? E se adaptar ao país é sofrer violência calada? Se for, realmente não recomendo a nenhum imigrante “ser são” e “se adaptar”.

Enquanto para tantos imigrantes essa violência é um problema bem visível, também há aquelas pessoas que tapam os olhos e os ouvidos, mas que abrem a boca e dizem “não ver” este problema em Portugal. Talvez só “veja” quem está disposto a questionar as estruturas racistas, colonialistas, machistas e misóginas da sociedade em que vive, quem aceita que não pode saber mais de nossas vivências do que nós mesmas e quem entende que também temos o direito de reclamar e lutar pelos nossos direitos. Os outros vão dizer que têm amigos brasileiros, angolanos, cabo-verdianos, ucranianos, indianos… que nunca enfrentaram nem um tipo de violência. Que não deveríamos reclamar porque os nossos países de origem são muito piores, quando, na maior parte das vezes, nunca nem lá estiveram. Que, se não estamos satisfeitas, que voltemos para “nossa terra”, mas esquecem a contribuição cultural e financeira que os imigrantes trazem para o país. Os 5,2 mil milhões de euros para a Segurança Social que o digam.

Vão dizer que a culpa da má fama é das próprias brasileiras que vieram se prostituir no exterior, que vieram “roubar” os maridos, mas esquecem-se de dizer que o Brasil foi construído pelos “descobridores” utilizando o estupro, a exploração sexual, a invasão e o roubo, problemas que não se resolveram apenas com o fim da escravização e da colonização. Vão dizer que, ao falar sobre o passado colonial, estamos disseminando o ódio contra Portugal e contra os portugueses, quando não fomos nós que criamos uma ideologia que desumaniza certos grupos de pessoas baseando-se na raça, etnia e nacionalidade com o intuito de tornar mais fácil a exploração dessas pessoas. Aqui também é preciso falar do fenómeno dos imigrantes de países que foram colonizados que são “privilegiados”, e que dizem que nunca foram discriminados em Portugal, e, por isso, falam que este problema não existe e que “temos de nos adaptar”, que precisamos nos assimilar integrar. Estes, talvez, sejam os mesmos que se orgulham em dizer que são brasileiros “diferentes”, mas esquecem que antes do “diferente” há sempre um brasileiro, já que a Ciência ainda não descobriu como voltar ao passado e nascer de novo, “branco” e num país europeu.

Continue lendo no site do Público